Filipe Marques - Moi aussi avec toi…

Síntese:
"A arte contemporânea será tanto mais eficaz
quanto mais se orientar em função da reprodutibilidade
e, portanto, quanto menos colocar no seu centro a obra original".
Walter Benjamin, 1935.
quanto mais se orientar em função da reprodutibilidade
e, portanto, quanto menos colocar no seu centro a obra original".
Walter Benjamin, 1935.
Moi aussi avec toi…
Os trabalhos apresentados por Filipe Marques na Galeria Sopro, mantêm as mesmas duas noções que o autor tem investigado e desenvolvido no último ano. A noção de Discurso-Referência que envolve a narração de processos, a demonstração do domínio técnico da linguagem pictórica enquanto processo oficinal – e a noção de Espaço-Barroco-Sincopado, isto é, da pintura enquanto alegoria do conceito, o confronto dicotómico entre o racional e o emotivo, o gesto expressivo e repetitivo, o excesso matérico em acumulação e por isso barroco. Ambas as concepções lançavam uma interrogação - a do estatuto da imagem pictórica. Na série actual, essa interrogação é extravasada pelo questionamento não apenas do estatuto mas também da sua própria validade pela inserção de imagens impressas digitalmente e pelos frames também apropriados de Rudolf Nureyev e Margot Fonteyn (1966) em Swan Lake de Tchaikovsky e do mesmo bailarino em La Bayadère com o Ballet da Ópera de Paris (1992). Ambos apresentados em loop nos ecrãs plasmas instalados no espaço expositivo.
Os trabalhos apresentados por Filipe Marques na Galeria Sopro, mantêm as mesmas duas noções que o autor tem investigado e desenvolvido no último ano. A noção de Discurso-Referência que envolve a narração de processos, a demonstração do domínio técnico da linguagem pictórica enquanto processo oficinal – e a noção de Espaço-Barroco-Sincopado, isto é, da pintura enquanto alegoria do conceito, o confronto dicotómico entre o racional e o emotivo, o gesto expressivo e repetitivo, o excesso matérico em acumulação e por isso barroco. Ambas as concepções lançavam uma interrogação - a do estatuto da imagem pictórica. Na série actual, essa interrogação é extravasada pelo questionamento não apenas do estatuto mas também da sua própria validade pela inserção de imagens impressas digitalmente e pelos frames também apropriados de Rudolf Nureyev e Margot Fonteyn (1966) em Swan Lake de Tchaikovsky e do mesmo bailarino em La Bayadère com o Ballet da Ópera de Paris (1992). Ambos apresentados em loop nos ecrãs plasmas instalados no espaço expositivo.
O estatuto e legitimidade da imagem transformam-se num exercício perceptivo passível de ser lido em várias dimensões. Esta nova série de trabalhos exclui o exercício correctivo que mesclava os diferentes estratos na superfície da tela da série de trabalhos apresentados anteriormente. Eles são agora individualizados de um modo estanque e o corte arqueológico é muito mais evidente. É clara a territorialidade entre a pintura e a impressão fotográfica.
A noção de simulacro ganha uma nova dimensão. Interrogam-se os limites do informalismo não com o suporte hiper-realista, que na realidade não existe, mas pela simulação da imagem real, aqui apropriada e usada como sustentáculo narrativo e base da pintura em si – a arena onde ela se lança.
(...) As imagens são apenas o leitmotif para a criação de imagens-sedução, o que Jean Baudrillard designou de crime-original. Neste acto intencional, a impressão fotográfica é usada de forma meramente instrumental. Trata-se de uma disposição que não é nem passiva, objectiva ou desinteressada, mas activa, subjectiva e motivada. A noção de apropriação inclui um acto interpretativo e o comprometimento com algo interno ao que é apropriado. Há algo do Pierre Menard e do seu Quixote nesta apropriação. (...)
O que é verdadeiramente manifesto nestas obras é a desagregação algo irónica da distinção criada pelos artistas e críticos modernistas entre arte culta e cultura popular. (...)
O que é verdadeiramente manifesto nestas obras é a desagregação algo irónica da distinção criada pelos artistas e críticos modernistas entre arte culta e cultura popular. (...)
Não tem sentido mover qualquer tipo de questão sobre a autenticidade ou originalidade ou mesmo sobre a importância do estilo enquanto signo operatório, para usar a expressão de Rosalind Krauss. Aliás, a mesma autora afirma no seu ensaio A Originalidade da Vanguarda que as suas sucessivas reinvenções resultaram das exigências de originalidade, e que esta é apenas uma hipótese de trabalho que surge num plano de repetições e recorrências. Fotografias pirateadas? Violação dos direitos de autor? (...)
As impressões fotográficas funcionam assim como o texto que sustenta a linguagem pictórica e que só existe no movimento do discurso. É por isso que assume uma postura paradoxal, pois subentende uma noção de classificação, de taxionomia espaço-temporal (espaço da apropriação versus espaço da pintura), que encerra uma hierarquia de lugar, de espaço de ocupação.
Também por tudo isto, é plural, tem múltiplos significados. Podemos compará-la a um campo de territorialidades várias onde se afirma uma orquestração quase orgeástica de meios, desde as implicações de ordem geográfica que uma possível narrativa poderá encerrar – entre a fuga em 1961 da ex Rússia soviética e a obtenção da cidadania austríaca em 1982 – com as suas beligerantes implicações em período de guerra-fria, às implicações de género e a polémica definição da identidade sexual do bailarino e a sua exuberante afirmação. Para desfecho, como numa história trágica, com princípio meio e fim, surgem outras duas fronteiras entre territórios dicotómicos: entre o saudável e o contaminado, entre o perene e o efémero – entre uma carreira brilhante, eterna, conquistada, sofrida e aclamada e a última aparição pública em 1992 como director na estreia parisiense da La Bayadère – cujos frames são percepcionáveis em três dos ecrãs plasma como alegoria do movimento que as imagens apropriadas, linhas, manhas e bolsas de verniz coreografam –, e a morte por HIV em 1993. Mas também estão presentes outras delimitações. Entre o corpo do sujeito ou sujeitos, neste caso, e o espaço-tempo da dança e sobretudo uma sensação de omnipresença amorosa, impossível na forma carnal mas desejada platonicamente e executada nos movimentos ou pausas que se percebem em cada trabalho.
Também por tudo isto, é plural, tem múltiplos significados. Podemos compará-la a um campo de territorialidades várias onde se afirma uma orquestração quase orgeástica de meios, desde as implicações de ordem geográfica que uma possível narrativa poderá encerrar – entre a fuga em 1961 da ex Rússia soviética e a obtenção da cidadania austríaca em 1982 – com as suas beligerantes implicações em período de guerra-fria, às implicações de género e a polémica definição da identidade sexual do bailarino e a sua exuberante afirmação. Para desfecho, como numa história trágica, com princípio meio e fim, surgem outras duas fronteiras entre territórios dicotómicos: entre o saudável e o contaminado, entre o perene e o efémero – entre uma carreira brilhante, eterna, conquistada, sofrida e aclamada e a última aparição pública em 1992 como director na estreia parisiense da La Bayadère – cujos frames são percepcionáveis em três dos ecrãs plasma como alegoria do movimento que as imagens apropriadas, linhas, manhas e bolsas de verniz coreografam –, e a morte por HIV em 1993. Mas também estão presentes outras delimitações. Entre o corpo do sujeito ou sujeitos, neste caso, e o espaço-tempo da dança e sobretudo uma sensação de omnipresença amorosa, impossível na forma carnal mas desejada platonicamente e executada nos movimentos ou pausas que se percebem em cada trabalho.
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O movimento é um dos elementos centrais. E paradoxalmente assiste-se à fixação da mobilidade numa imagem estática e à conservação virtual da narrativa dos movimentos em mapas que são coreografados sobre as impressões fotográficas. Apesar de invisível traça-se uma fronteira entre a impressão e a mancha que se lhe sobrepõe. José Gil referindo-se à La Mariée de Duchamp fala de imagens-acto, isto é, de imagens que resultam de uma certa acção de que não se podem separar. O movimento existe em potência em cada uma destas obras, na realidade, na representação da realidade e no simulacro. O que as imagens podem fazer é representar outras imagens.
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O movimento é um dos elementos centrais. E paradoxalmente assiste-se à fixação da mobilidade numa imagem estática e à conservação virtual da narrativa dos movimentos em mapas que são coreografados sobre as impressões fotográficas. Apesar de invisível traça-se uma fronteira entre a impressão e a mancha que se lhe sobrepõe. José Gil referindo-se à La Mariée de Duchamp fala de imagens-acto, isto é, de imagens que resultam de uma certa acção de que não se podem separar. O movimento existe em potência em cada uma destas obras, na realidade, na representação da realidade e no simulacro. O que as imagens podem fazer é representar outras imagens.
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[Fotografias de Soraya Vasconcelos
Texto publicado na integra no Catálogo da mesma exposição pela Galeria Sopro / Projecto de arte contemporânea - www.sopro.pt]
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